quarta-feira, 2 de julho de 2014

Sobre transbordar


Ler ouvindo I'm a mess, do Ed Sheeran


Eu li as coisas que você escreveu hoje.
Ele tem razão, sabe? Eu presto muita atenção ao que dizem. Fica na minha cabeça, na minha alma, no meu corpo, no meu coração.

Eu sou assim, meio intensa. Transbordo uma, duas, três vezes antes que alguém possa chegar até a metade. E você não tinha nem três gotas dentro do copo quando eu transbordei pela primeira vez.

Me desculpa.

Mas eu não me sinto culpada.


"See the flames inside my eyes
It burns so brigh, I wanna feel your love
Easy, baby, maybe I'm a light
Before tonight I wanna fall in love"


Essa música está tocando há algumas horas. É do CD novo do Ed Sheeran. Eu estava tentando entender o que tinha nela que me fazia querer arrancar alguns fios de cabelo... Acho que finalmente entendi.

Você sorriu hoje. Gosto quando sorri.

Mas suas palavras, lá, escritas, fizeram tudo sangrar. E foi bom. Porque eu entendi. Mas depois de entender a gente não desentende. A gente não tem como des-saber. E agora parece que eu sou a criança. Que eu brinco com fogo. Que eu ainda vou ser você, quando descobrir o que é dor.

E tudo isso me assusta.

E me faz transbordar.

E colocar a música no repeat mais uma vez. E mais uma vez. E mais uma vez.


"For how long, long I've loved my lover..."

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Sobre o Hakuna Matata e a Valesca Popozuda




Eu lembro que, há alguns meses, depois de uma semana cheia de stress, TPM e irritação, eu me enterrei numa profunda análise do que o termo “Hakuna Matata” realmente significava.

“Quando o mundo vira as costas pra você, você vira as costas para o mundo”, dizia o Timão. E tudo o que eu conseguia pensar era “esse é o jeito mais lúdico que a Disney encontrou de ensinar as crianças a dizerem FODA-SE”.

Hakuna Matata para os seus problemas, criancinha. Foda-se que seus pais estão se divorciando, que você está sem dentes e que o mundo, no geral, está acabando. Um foda-se simpático. Com trilha sonora. Análogo. Praticamente uma árvore de natal. Simbólico.

E eu, na minha bolha lunática de divagação, achei completamente válido.

Explico o porque: as teclas mais pressionadas na hora de criticar a Disney são os estereótipos. A princesa indefesa que espera o homem para ajeitar sua vida. O homem forte e incrível que salva o dia. A bruxa má e feia. Padrões, padrões, padrões.

Mas veja bem… Fui criada a base de filmes de animação. Não esse combo assassino de “Princesas Plumáticas”.  Filmes como Mulan, Pocahontas, Bela e a Fera, Branca de Neve e os Sete Anões…

Ao assisti-los, eu era convidada a um universo diferente. Deixava o sofá de casa e pulava para dentro da TV. Lá, encontrava animais que eram capazes de costurar, falar, bancar os detetives; feras que pareciam terríveis, mas que na verdade eram gentis, inimigos que no começo se mostravam como galãs; bibliotecas imensas, músicas que eram parte dos diálogos, árvores que davam conselhos e até cogumelos alucinógenos que faziam uma garotinha visitar o “País das Maravilhas”.

E enquanto a Disney usa dos seus artifícios e estereótipos para ensinar as crianças a dizerem foda-se, o que eu percebo do restante do mundo, principalmente da mídia, é a grande reprodução de duas grandes opiniões do último SENSACIONAL MEME da vida real.

Vamos lá ao que interessa.

Valesca Popozuda. Prova de filosofia no Distrito Federal. A POLÊMICA: ela é ou não uma GRANDE PENSADORA?

O que a galera não percebeu é que a gente acabou não discutindo isso, não é mesmo? Estamos divididos em dois:  os que acham que entenderam a piada do professor (que, aparentemente, foi irônico), e os que se revoltaram com a errônea sinalização de uma personalidade do funk como símbolo intelectual.

O que eu sinto falta, por exemplo, é da época em que gostar de funk não era uma “Afirmação Social”, mas uma questão de gosto musical. 

Eu não preciso gostar de funk para entender a importância desse tipo de música para um certo público. Assim como esse certo público não precisa gostar de musiquinha indie pretensiosa para entender a importância dela para  mim (foi uma piada, gente).

A questão é… Quando é que ficamos preguiçosos demais para termos uma opinião sobre as coisas? A gente basicamente se dividiu em dois gomos pré-definidos e retuitamos e republicamos os pensamentos alheios sem considerar, de verdade, o que a gente ACHA sobre aquilo.

Não éramos a geração do achismo?

E no meio dessa conversa toda, o nosso querido professor de filosofia só esqueceu de verificar que os autores de “Beijinho no Ombro” são, respectivamente, Wallace Vianna, André Vieira e Pardal. Não Valesca Popozuda.

Hakuna Matata, amigos, Hakuna Matata.

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Um ps: anexo o link da matéria do Terra, apenas para dizer que MEO DEOS, como essa porra tá mal escrita.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Sobre a bulimia






My body is a cage

That keeps me from dancing with the one I love
But my mind holds the key
Arcade Fire - My Body is a Cage



“Eu acho que nunca vi você sendo você mesma em público”. Essa era a explicação delicada dele depois de me chamar de camaleão social – uma coisa que se adapta aos padrões cromáticos do meio em que se encontra. Que se camufla.

Me perguntei o que ele queria dizer com “em público”. Às vezes, quando estou sozinha, eu estou em público comigo mesma. Tenho mil olhos da minha própria consciência me vigiando, me julgando e observando cada coisa que faço.

E às vezes, quando estou em meio a tanta gente, me sinto numa ilha, isolada das pessoas por oceanos inteiros.

Segundo ele, os oceanos são preços que eu me arrisquei a pagar. Eu concordo, eu concordo… Quando a gente se joga, quando a gente vai atrás do que quer, a gente põe coisas à prova… Amizades, certezas, paixões.

Tento responder como se a indagação dele fosse uma pergunta. Ele já me viu ser eu mesma em público?

Eu lembro de quando era adolescente, quando eu ainda estava na escola. Posso não lembrar dos fatos, dos dias, dos detalhes. Mas eu lembro de algumas sensações. Algumas importantes sensações que me faziam… Eu.

Um buraco no fundo do estômago. Um buraco no meio do peito. Talvez eu não soubesse quem eu era, talvez eu não gostasse de quem eu era. Eu não fiquei tempo o bastante no consultório da psicóloga para descobrir tudo isso… Mas eu lembro dos meus 14 anos.

Eu lembro do peso das palavras e de como elas ficavam comigo. De como eu não sabia colocá-las para fora, e como ainda não sei. Eu comia as palavras, eu comia os sentimentos. Eu comia minha personalidade.

E eu comia tudo o que via pela frente.

“Você não come, você engole”

“Isso não é uma família, é uma criação de baleias”

“A única coisa que você sabe fazer é comer”

“Você é gorda mas você é legal”

“Ele me perguntou se eu ficaria com você, caso você emagrecesse e ficasse gostosa”

“Gorda é a única coisa que você é”

Gorda gorda gorda gorda gorda gorda gorda gorda.

E então os dedos. O escape da culpa. A outra forma de culpa.
Você sabia que você pode ter bulimia por anos e ninguém nunca saber? Você sabia que dizer bulimia pode ser tão doloroso quanto ter a própria doença?

Você sabia que o tratamento não é rápido, não é prático e não faz você deixar de ser bulimica? Ou gorda?

Você sabia que seu psiquiatra pode te dar um anti-depressivo e dizer que vai te ajudar a emagrecer. E que se você quiser, ele pode aumentar a dose?

Você sabia que você pode ficar com medo de ir ao psicólogo, porque você sabe que você vai mentir pra ele? E então ele vai perceber e se decepcionar. E você não quer ser a decepção na vida de mais ninguém.

Eu descobri isso tudo ano passado, quando resolvi começar a me tratar, depois de 10 anos de “doença”. E ainda estou descobrindo um monte de coisa. E descobrindo que ninguém tem, ou precisa ter, a paciência para entender tudo isso comigo.

Mas que se eu não tiver paciência comigo mesma…


Bom, eu vou passar a minha vida toda achando que, se eu for eu mesma em público, as pessoas só vão ver uma gorda bulimica e rir de mim.

E parte forte de mim sabe que isso não é tudo o que eu sou.





quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Sobre as primeiras vezes

foto de Rachel Dowda




“Você percebe que você meio que recriou a sua primeira vez com ele?”

Eu olhei fixamente para ela, não sei se meus olhos diziam que sim ou que não. Não sei se eu pensava que sim ou que não. Só sei que eu já tinha pensado em algo similar. Tinha pensado em esquecer a primeira vez, em considerar ele o meu primeiro.

Não porque a primeira vez tivesse sido tão traumática e paralizante. Por mais que ela me diga que eu precise entender quando for invadida, eu ainda acho que ganhei o que busquei. Eu busquei um idiota que leva uma garota para o motel sem saber o nome dela. E que, depois que ela confessa ser virgem, termina o trabalho mesmo assim. Sem cuidado, sem carinho, sem vontade.

E o ato todo se finaliza numa grande chupada no chuveiro.

Parte de mim chora pela falta dos “primeiros”. O primeiro beijo apaixonante. Um com significado e afeto. Um que não seja produto de puxada de cabelo na balada.

Quase eu inteira queria uma primeira vez, se não perfeita, imperfeitamente poética. Por isso pensei em considerá-lo meu primeiro. Ele foi, em todos os sentidos, imperfeitamente poético, do jeito que eu gosto. Do jeito que eu preciso.

Mas eu penso por um segundo em cicatrizes. Aquelas finas e claras, que a gente só vê quando para e presta atenção. Uma redonda, na parte de dentro do meu braço, que me lembra das coisas que eu perdi. Duas no meu rosto, que me lembram de não coçar a catapora. Uma no meu pulso, que me lembra de não ignorar a dor. Uma no joelho esquerdo, que me lembra de não ter pressa. E a primeira vez, que me lembra de não me deixar invadir.

Tem uma amiga minha que odeia a cicatriz dela, uma bem na mão, uma marca de queimadura. Eu digo para ela que é parte da história dela. Digo que é linda, que é significativa e que não pode ser escondida por uma pomada qualquer que faz a pele cicatrizar. Não, porque você viveu aquele machucado e você sentiu aquilo. Eu vivi a minha ridícula primeira vez e eu me submeti àquela experiência. Eu tinha medo e eu agi com medo. Medo de nunca experienciar o que era ser desejada, medo de nunca conhecer o toque de um homem. Medos.

E eu odeio agir com medo. Se tem uma coisa que me orgulho agora é da minha coragem. É de não ser paralizada por nada. É de ter reunido todos as minhas fibras de força e ter sido sincera.

Por isso, uso minha pequena cicatriz da primeira vez como uma tatuagem. Com ela, eu não tenho um caso de amor, como tenho com meu lobo, com meu sigil e com meu “like crazy”. Ela é o meu aviso. Ela me mostra que uma simples dose de respeito faz toda a diferença.

Respeito. Eu demorei pra pensar nessa palavra.

Demorei?

Demorei exatos três minutos olhando para ele para me decidir. Peguei sua mão e puxei-o para o corredor. Não sabia se ele tinha medo, vergonha, falta de vontade ou simplesmente se precisava de privacidade. Só sabia que no corredor as coisas seriam simples, fáceis, claras. E elas foram.

Eu lembro de detalhes. De todos os detalhes. Lembro do sorriso dele, como quem diz “Ok, estou sem graça” e de sua rendição, abrindo os braços e me beijando de um jeito que eu só consigo definir com “com o corpo todo”.

Ele beija com o corpo todo. E era o nosso primeiro beijo.

Meu primeiro algo, veja bem.

Lembro da porta fechando, dos olhares perdidos e dele percebendo meu nervosismo. Do “relaaaxa” dele, que ele diz pra quase tudo, até hoje. Lembro dele tomando o controle.

Eu sempre achei que não gostasse de sexo oral. Eu nunca tinha tentado. Nunca tinham tentado em mim, pelo menos. Talvez por eu ser tão consciente com o meu próprio corpo, talvez por eu detestar tanto as minhas formas. Mas ele não pediu permissão, ele não perguntou se eu queria. Ele também não me invadiu. Ele apenas... Me descobriu.

Outra primeira vez.

Me pego pensando naquele dia 13 e vejo várias primeiras vezes. Várias “matações de vontade”, vários momentos que foram para mim, ele sabendo disso ou não. Ele entendendo isso ou não.

Por isso, quando ela me diz que eu recriei a primeira vez, entendo o que quer dizer. E considero. E penso, penso, penso. Como se de um pensamento algo como uma conclusão útil e bem formulada pudesse sair e resolver todos os meus maus entendidos.

Mas retruco, tardiamente, aqui, deitada na mesma cama em que tudo aconteceu, lembrando das mãos deliciosamente grandes dele na minha pele e do beijo de corpo todo dele, que eu não refiz nada. O que eu fiz foi começar a porra do capítulo 2.


E que das segundas vezes... Bem, delas eu tenho um puta de um orgulho.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Sobre o sol


By Helen Worrall

[para ler ouvindo Nigh Vision, Imagine Dragons]



27 de setembro, 2015

Se você está lendo esta carta, é porque eu estou morta.

Ok, desculpe. Eu sempre quis dizer isso.

Para falar a verdade, estou contando com a possibilidade de eu ainda estar viva. Talvez, se tudo sair como planejado, eu ainda tenha alguma chance de salvar a mim mesma, e àquilo que mais importa. E, para isso, você precisa me ajudar - seja lá quem você é.

Não sei como estão as coisas aí desse lado, mas por aqui não estão nada normais. Ou favoráveis. Desde a última troca, que aconteceu há cerca de um mês, não há mais nenhum tipo de meio de comunicação funcionando. Nenhum dos Gs, nem banda larga, nem dial-up (sim, eu tentei), nem rádio, nem fibra óptica, nem telefone, nem televisão, nem rádio, nem nada. Me sinto numa ilha deserta.

As pessoas começaram a deixar suas casas depois da primeira ou segunda troca. As coisas ficaram muito feias, muito depressa. Não deu tempo de planejar muito. A maioria delas se agrupou em shoppings e supermercados. Qualquer um com mínima instrução na cultura pop sabe que esse tipo de coisa é burrice, mas acho que, quando está acontecendo de verdade e você sente o perigo, a lógica fica um pouco falha. 

Ouvi boatos de um novo governo sendo formado. Uma ordem surgida do caos, que obviamente utilizaria da violência para funcionar. Fiquei o mais longe possível deles. 

Não só deles, na verdade. Fiquei longe de tudo. Não confiei em ninguém o bastante para pedir ajuda. Ou para ajudar. Mas a cada dia que passa eu tenho mais certeza de que essa é uma missão para quatro mãos.

Eu devia ter começado explicando quem eu sou e do que raios eu estou falando. Bom, lá vai. Meu nome é Holly Hartwell. Meu pai foi Tony Hartwell. Você já deve ter ouvido falar dele. Há um ano, quando o sol ainda não tinha passado pela primeira troca, ele era considerado pela mídia o "profeta do apocalipse".

Eu discordo desse apelido, principalmente porque ele nunca tentou evangelizar ninguém sobre o assunto. Ele simplesmente trabalhou, e trabalhou muito, para que a humanidade não se matasse quando a última troca chegasse.

E estamos muito perto dela agora, eu devo dizer.

Ele chamou a primeira troca de "agouro". Você deve ter conhecido ela como a "madrugada sem fim". Foi a época em que passamos sete dias e sete noites sob a luz fria do fim da madrugada.

Na segunda troca nós perdemos esse brilho. Ele chamou essa época de "prelúdio". Era noite, mas era uma noite clara. Eu via a lua e a eletricidade ainda funcionava. O mundo estava assustado e já começava a sofrer com a falta de preparação humana, mas ainda havia esperança.

Foi aí que ele morreu. Eu não sei como aconteceu, onde ou porque. Tudo o que eu sei é que o cachorro dele, o Butch, nunca teria voltado se ele ainda estivesse vivo.

Eu estava preparada para isso. Ele havia me instruído sobre o que fazer. Parti com Butch para bunker de meu pai, onde ele guardava o fruto da pesquisa. 

A terceira troca aconteceu logo depois da minha chegada. A eletricidade havia acabado. Vivemos por muito tempo só com a luz da lua. E tenho certeza que muitas pessoas acharam que esse era o fim da transformação. Que estávamos a salvo, finalmente. Nunca descobri como meu pai teria chamado essa troca, mas eu a apelidei de "silêncio". Era o silêncio antes da tempestade, afinal de contas.

E era mesmo. Quando a lua apagou, até mesmo eu não soube o que fazer. Viver de fogo era pouco prático e muito perigoso. E as baterias não durariam para sempre.

Então me apressei. Terminei de montar a arma, empacotei o que consegui e parti para onde estou agora.

O nariz de Butch tem me guiado fielmente até aqui, mas suas patas caninas não tem a energia que preciso para acionar a arma. E é por isso que preciso de você.

Estou enviando essa carta por Honey, meu corvo. Ele vai te achar, independentemente de onde você estiver, e vai esperar para te guiar de volta até mim.

Daqui a alguns dias, quando a última troca acontecer, vamos estar completamente no breu. Qualquer tipo de energia deixará de existir e vamos todos - animais e plantas - morrer.

E você pode me ajudar a mudar tudo isso.

Meu pai costumava dizer que, para cada criatura colocada na face da terra, há um propósito. E que, ao contrário do que parece, o ser humano não está aqui para acabar com ela. Ele acreditava que uma das coisas mais incríveis de se observar sobre nós é a energia. A forma como emanamos nossos próprios sentimentos. Nossos pensamentos. E como nossas reações se transformam em coisas físicas.

Por isso algumas pessoas eram capazes de apagar postes de energia durante um rompante de raiva. Capazes de fazer um ambiente parecer mais denso ou mais leve. De fazer as pessoas sorrirem, mesmo que contra suas vontades.

É dessa energia que eu preciso.

Despeço-me aqui, torcendo para que você siga Honey e me encontre. E que, quando dermos as mãos, nossas energias, juntas, sejam capazes de ativar a arma que salvará o planeta.

Holly.