sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Sobre não-diálogos

Você quebra em 892 partes e se espalha pela sala. Eu digo "don't let them see you break" e passo as mãos pelos seus cabelos.

Ele pegou seu ódio e o engoliu. de.glu.tiu. Mas antes de chegar ao estômago já era uma massa negra e purulenta. Coisas de pesadelos que a gente esquece ao acordar.

Quando viu a luz do dia de novo já tinha coletado palavras o bastante para traduzir o processo em dor. fa.la.da.

Você viu a onda vindo, mas não correu. Acho que você espera pelas ondas, se alimenta delas, transforma-as em histórias que mantém as pessoas por perto, regadas de vinho e lágrimas.

E você disse "I was the one to suffer here". E foi, mesmo.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

sobre o guardião invisível


Ler ouvindo: Yellow Flicker Beat, Lorde.

Ele me falou sobre o bem e o mal, e sobre as criaturas que destroem sem nunca criar.

Naquela noite, o céu ficou quieto e escutou enquanto eu descobria coisas que não sabia. Enquanto as articulações do meu cérebro faziam ligações perigosas e impossíveis. Enquanto eu balanceava o peso da culpa e a leveza da absolvição.

Talvez o silêncio fosse o prelúdio de algo. Uma porta antiga abrindo e revelando um caminho que eu nunca ousei explorar.

Olho por através dela e vejo um corredor cheio de portas. Sei que há passarinhos soltos em salas imensas onde o sol bate sem precisar de nenhuma fresta e que o vento sopra livre, sem esperar permissão.

Sei que há salas vazias, entupidas de solição, criaturas que habitam o escuro, esperando pelo nome e forma que os trazem para a luz.

Sei que há sonhos. Estilhaços de mensagens que se juntam para formar um espelho, um riacho, um reflexo daquilo que ainda não habita a minha consciênca, mas quase.

Mas não passo pela porta hoje.

Hoje eu penso sobre o bem e o mal, sobre criaturas que destroem sem nunca criar. Sobre o meu amuleto quebrado no chão.

Sobre a morte de um guardião invisível. E a culpa de não falar sobre isso.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Sobre transbordar


Ler ouvindo I'm a mess, do Ed Sheeran


Eu li as coisas que você escreveu hoje.
Ele tem razão, sabe? Eu presto muita atenção ao que dizem. Fica na minha cabeça, na minha alma, no meu corpo, no meu coração.

Eu sou assim, meio intensa. Transbordo uma, duas, três vezes antes que alguém possa chegar até a metade. E você não tinha nem três gotas dentro do copo quando eu transbordei pela primeira vez.

Me desculpa.

Mas eu não me sinto culpada.


"See the flames inside my eyes
It burns so brigh, I wanna feel your love
Easy, baby, maybe I'm a light
Before tonight I wanna fall in love"


Essa música está tocando há algumas horas. É do CD novo do Ed Sheeran. Eu estava tentando entender o que tinha nela que me fazia querer arrancar alguns fios de cabelo... Acho que finalmente entendi.

Você sorriu hoje. Gosto quando sorri.

Mas suas palavras, lá, escritas, fizeram tudo sangrar. E foi bom. Porque eu entendi. Mas depois de entender a gente não desentende. A gente não tem como des-saber. E agora parece que eu sou a criança. Que eu brinco com fogo. Que eu ainda vou ser você, quando descobrir o que é dor.

E tudo isso me assusta.

E me faz transbordar.

E colocar a música no repeat mais uma vez. E mais uma vez. E mais uma vez.


"For how long, long I've loved my lover..."

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Sobre o Hakuna Matata e a Valesca Popozuda




Eu lembro que, há alguns meses, depois de uma semana cheia de stress, TPM e irritação, eu me enterrei numa profunda análise do que o termo “Hakuna Matata” realmente significava.

“Quando o mundo vira as costas pra você, você vira as costas para o mundo”, dizia o Timão. E tudo o que eu conseguia pensar era “esse é o jeito mais lúdico que a Disney encontrou de ensinar as crianças a dizerem FODA-SE”.

Hakuna Matata para os seus problemas, criancinha. Foda-se que seus pais estão se divorciando, que você está sem dentes e que o mundo, no geral, está acabando. Um foda-se simpático. Com trilha sonora. Análogo. Praticamente uma árvore de natal. Simbólico.

E eu, na minha bolha lunática de divagação, achei completamente válido.

Explico o porque: as teclas mais pressionadas na hora de criticar a Disney são os estereótipos. A princesa indefesa que espera o homem para ajeitar sua vida. O homem forte e incrível que salva o dia. A bruxa má e feia. Padrões, padrões, padrões.

Mas veja bem… Fui criada a base de filmes de animação. Não esse combo assassino de “Princesas Plumáticas”.  Filmes como Mulan, Pocahontas, Bela e a Fera, Branca de Neve e os Sete Anões…

Ao assisti-los, eu era convidada a um universo diferente. Deixava o sofá de casa e pulava para dentro da TV. Lá, encontrava animais que eram capazes de costurar, falar, bancar os detetives; feras que pareciam terríveis, mas que na verdade eram gentis, inimigos que no começo se mostravam como galãs; bibliotecas imensas, músicas que eram parte dos diálogos, árvores que davam conselhos e até cogumelos alucinógenos que faziam uma garotinha visitar o “País das Maravilhas”.

E enquanto a Disney usa dos seus artifícios e estereótipos para ensinar as crianças a dizerem foda-se, o que eu percebo do restante do mundo, principalmente da mídia, é a grande reprodução de duas grandes opiniões do último SENSACIONAL MEME da vida real.

Vamos lá ao que interessa.

Valesca Popozuda. Prova de filosofia no Distrito Federal. A POLÊMICA: ela é ou não uma GRANDE PENSADORA?

O que a galera não percebeu é que a gente acabou não discutindo isso, não é mesmo? Estamos divididos em dois:  os que acham que entenderam a piada do professor (que, aparentemente, foi irônico), e os que se revoltaram com a errônea sinalização de uma personalidade do funk como símbolo intelectual.

O que eu sinto falta, por exemplo, é da época em que gostar de funk não era uma “Afirmação Social”, mas uma questão de gosto musical. 

Eu não preciso gostar de funk para entender a importância desse tipo de música para um certo público. Assim como esse certo público não precisa gostar de musiquinha indie pretensiosa para entender a importância dela para  mim (foi uma piada, gente).

A questão é… Quando é que ficamos preguiçosos demais para termos uma opinião sobre as coisas? A gente basicamente se dividiu em dois gomos pré-definidos e retuitamos e republicamos os pensamentos alheios sem considerar, de verdade, o que a gente ACHA sobre aquilo.

Não éramos a geração do achismo?

E no meio dessa conversa toda, o nosso querido professor de filosofia só esqueceu de verificar que os autores de “Beijinho no Ombro” são, respectivamente, Wallace Vianna, André Vieira e Pardal. Não Valesca Popozuda.

Hakuna Matata, amigos, Hakuna Matata.

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Um ps: anexo o link da matéria do Terra, apenas para dizer que MEO DEOS, como essa porra tá mal escrita.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Sobre a bulimia






My body is a cage

That keeps me from dancing with the one I love
But my mind holds the key
Arcade Fire - My Body is a Cage



“Eu acho que nunca vi você sendo você mesma em público”. Essa era a explicação delicada dele depois de me chamar de camaleão social – uma coisa que se adapta aos padrões cromáticos do meio em que se encontra. Que se camufla.

Me perguntei o que ele queria dizer com “em público”. Às vezes, quando estou sozinha, eu estou em público comigo mesma. Tenho mil olhos da minha própria consciência me vigiando, me julgando e observando cada coisa que faço.

E às vezes, quando estou em meio a tanta gente, me sinto numa ilha, isolada das pessoas por oceanos inteiros.

Segundo ele, os oceanos são preços que eu me arrisquei a pagar. Eu concordo, eu concordo… Quando a gente se joga, quando a gente vai atrás do que quer, a gente põe coisas à prova… Amizades, certezas, paixões.

Tento responder como se a indagação dele fosse uma pergunta. Ele já me viu ser eu mesma em público?

Eu lembro de quando era adolescente, quando eu ainda estava na escola. Posso não lembrar dos fatos, dos dias, dos detalhes. Mas eu lembro de algumas sensações. Algumas importantes sensações que me faziam… Eu.

Um buraco no fundo do estômago. Um buraco no meio do peito. Talvez eu não soubesse quem eu era, talvez eu não gostasse de quem eu era. Eu não fiquei tempo o bastante no consultório da psicóloga para descobrir tudo isso… Mas eu lembro dos meus 14 anos.

Eu lembro do peso das palavras e de como elas ficavam comigo. De como eu não sabia colocá-las para fora, e como ainda não sei. Eu comia as palavras, eu comia os sentimentos. Eu comia minha personalidade.

E eu comia tudo o que via pela frente.

“Você não come, você engole”

“Isso não é uma família, é uma criação de baleias”

“A única coisa que você sabe fazer é comer”

“Você é gorda mas você é legal”

“Ele me perguntou se eu ficaria com você, caso você emagrecesse e ficasse gostosa”

“Gorda é a única coisa que você é”

Gorda gorda gorda gorda gorda gorda gorda gorda.

E então os dedos. O escape da culpa. A outra forma de culpa.
Você sabia que você pode ter bulimia por anos e ninguém nunca saber? Você sabia que dizer bulimia pode ser tão doloroso quanto ter a própria doença?

Você sabia que o tratamento não é rápido, não é prático e não faz você deixar de ser bulimica? Ou gorda?

Você sabia que seu psiquiatra pode te dar um anti-depressivo e dizer que vai te ajudar a emagrecer. E que se você quiser, ele pode aumentar a dose?

Você sabia que você pode ficar com medo de ir ao psicólogo, porque você sabe que você vai mentir pra ele? E então ele vai perceber e se decepcionar. E você não quer ser a decepção na vida de mais ninguém.

Eu descobri isso tudo ano passado, quando resolvi começar a me tratar, depois de 10 anos de “doença”. E ainda estou descobrindo um monte de coisa. E descobrindo que ninguém tem, ou precisa ter, a paciência para entender tudo isso comigo.

Mas que se eu não tiver paciência comigo mesma…


Bom, eu vou passar a minha vida toda achando que, se eu for eu mesma em público, as pessoas só vão ver uma gorda bulimica e rir de mim.

E parte forte de mim sabe que isso não é tudo o que eu sou.